segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Identidade e melancolia: onde está a criança que vive no adulto?


Gaston Bachelard, em seu ensaio Os devaneios voltados para a infância, fala-nos que permanece um núcleo de infância na alma humana, “uma infância imóvel, mas sempre viva, fora da história, oculta para os outros, disfarçada em história quando a contamos, mas que só tem um ser real nos seus instantes de iluminação” (1988, p. 94). Assim, acontecimentos e valores, que emolduram nosso presente de pessoas adultas, manteriam contato com aquela fase na qual podíamos assumir variadas facetas comportamentais, antes dos fragmentos existenciais serem forçados a ficar coesos e exclusivos em torno de uma forma singular, que pensamos ser nossa pessoalidade única.
No correr da vida adulta, ficamos no dever de manter e assegurar um núcleo duro de subjetividade, que atue de modo esperado e produtivo pelas relações consensuais de nosso meio social. No entanto, de vez em quando, somos tomados por um sentimento de solidão e de inoperância, traduzidos por um estado de melancolia, diante dos empreendimentos esperados e, inconscientemente, voltamos aos primeiros movimentos de relações dos nossos romances familiares, nos quais as características infantis dominavam nossos impulsos e faziam frente às necessidades de enquadramento no mundo adulto.
No romance familiar, podemos acompanhar como foram nossas primeiras relações com os adultos a nossa volta. Essa fase contém relações comportamentais correspondentes ao que Freud (1996) denominou por Complexo de Édipo.
1 Nela, a criança aprenderia a conter seus instintos, emoções e desejos ambíguos e anti-sociais e enquadrar-se-ia nos parâmetros de fatos, pessoas e autoridades exemplares a sua volta. A partir da contensão de desejos, outrora multidirecionados, a imagem do Ego equilibrado seria o farol que direcionaria o sujeito por toda sua vida. O afastamento de si mesmo, como única fonte de prazer; o afastamento da mãe, como objeto de gozo; a identificação em relação ao pai, no caso do menino, como fonte de procedimento institucional, são os componentes para o imaginário configurar o Ego em corpo e pessoalidade individuais, como Lacan (1994, p. 68) fala-nos sobre o estágio do espelho.
A ilusão da imagem constituída pelo estágio do espelho está, de certa forma, no nível do complexo de Édipo resolvido no período da infância. Ou seja, a natural ambigüidade afetiva daria espaço para toda uma afetividade com investimentos sentimentais e intelectuais exclusivos e permitidos. Os instintos agressivos e narcisistas, segundo a ótica do Complexo de Édipo realizado com sucesso, são recalcados e o amor e gratidão, para com os adultos próximos e suas instituições, são fortalecidos.
Por que, então, o adulto retorna, de modo usual, ao complexo universo infantil quando o sentimento de melancolia surge e compromete sua funcionalidade como sujeito maduro? Melanie Klein (1996), em seus estudos sobre a psique infantil, conta-nos que o sentimento de melancolia, de solidão e de insuficiência demonstram os embates entre o princípio da realidade e o princípio do prazer que ainda vigoram no adulto.
2 Uma espécie de movimento contínuo desse embate faz com o que adulto retorne ao período infantil, no qual a identificação com os valores positivos, consolidaria o Ego à sombra do Superego e subordinaria as ações do Id ao senso de realidade. Repetir-se-ia, pois, o estágio de acomodação psíquica que descortinaria o amadurecimento pessoal.
Tal quadro dar-se-ia dessa forma, se o processo de exclusividade egóica realmente aplacasse o caráter proteiforme da personalidade humana. Porém, parece que é a um estágio de descompressão de realidade que o adulto melancólico pretende chegar, quando a partir da melancolia e solidão de sua maturidade, faz a volta à infância. Na esteira do pensamento pós-freudiano, podemos acompanhar como os sacrifícios para apaziguar as diretrizes de um Superego voraz não dão cabo das fantasias, afecções e movimentos em livre expansão, típicos do universo infantil e que também podem ter utilidade no mundo adulto.
Deleuze e Guattari (1966), seguindo as aberturas dadas à constituição do sujeito pelo lacanismo, que supera o estágio de integralização da miragem egóica especular, escreverão seu anti-Édipo, contrariando a interdição parental que o Édipo freudiano elaboraria para introduzir a criança nos meandros da civilização. Para esses filósofos neo-freudianos, a subjetividade madura teria sua compleição semelhante àquela infantil. Compreendendo por infância o período que não cessaria em uma determinada idade e, sim, continuaria com sua maleabilidade constitutiva e funcional por toda a vida do sujeito.
A constituição da subjetividade dar-se-ia, via sínteses conjuntivas inclusivas (DELEUZE e GUATTARI, 1966, p. 80), e não como a visão positivista de formação postula, via síntese conjuntiva exclusiva. Esta segunda modalidade implicaria no fato de o sujeito tornar-se uma subjetividade única, individual; ou seja, um repertório fechado de comportamentos e afecções, garantido por previsíveis identificações, controladas institucionalmente, com outros sujeitos. O menino identificar-se-ia com o pai e a menina, por sua vez, com a mãe, e seus afetos seriam ordenados e canalizados para ações sublimadas que assegurariam a continuidade de estruturas civilizatórias, como a ciência, a religião e a arte.
Quanto à constituição de síntese inclusiva da personalidade, teríamos, segundo Deleuze e Guattari, a personalidade disposta em
[S]ingularidades vindas de todos os lados [que entram no fluxo da subjetividade multiforme], agentes de produção evanescentes. É a disjunção livre; as posições diferenciais subsistem e até adquirem um valor livre, mas estão todas ocupadas por um sujeito sem rosto e transposicional. (1966, p. 80-81).
Poderíamos, pois, perceber a melancolia do adulto, e a conseqüente evasão espaço-temporal para a infância, como sinais de um redimensionamento de nossas crenças quanto à fixidez de um quadro de evolução. A melancolia, sensação de perda de algo que não se sabe ao certo o que é, indicaria um ponto de convívio natural entre princípio do real e princípio do prazer. A criança não estaria inativa em algum recôndito secreto do adulto e, sim, estaria agindo plenamente no adulto, possibilitando o livre curso de fantasias e ambigüidades afetivas que são necessárias para sua real compleição de sujeito transposicional.
A criança viva, que não pode ser morta sem gerar o colapso final da psique, recoloca o sujeito adulto no limiar de variadas escolhas que não trarão um produto final, como seria aquele da fase de maturidade pessoal definitiva. Assim, um entrecruzar de infantilidade e de comportamento adulto seria o campo de respostas para o sinal de alerta que, por vezes, soa no adulto envolto pela melancolia e pelo sentimento de solidão.
O sentimento de melancolia e de solidão do adulto, mais do que Klein nos indica ser, aponta para algo mais complexo do que subjetividades adultas culpadas, que estão em processo de reparação de objetos amados que são maculados e feridos no decorrer de suas vidas. Melancolia e solidão aproximam-se, ao contrário, de estados positivos que indicam ao adulto que há um excesso de peso, sobreposições demasiadas sobre o campo libertário, tão próprio do que seria a infância plena e distante dos protocolos culturais instaurados pelo regime de culpa, que ocasionam a ordem e diminuem a espontaneidade e a possibilidade do sujeito testar, em sua pele, subjetividades variadas e emoções diversificadas.
Tal como Bachelard nos orienta, melancolia, solidão e devaneios formam condições nas quais podemos ver novamente o clarão da eternidade baixando sobre a beleza do mundo. O mundo da infância, liberto no mundo do adulto que passa a ser enriquecido por contradições, ambigüidades, vontades de ações ilimitadas e, até mesmo, fantasias de onipotência criativa.
Nesse contexto de desligamento, que o estado de infância possibilita no mundo adulto, não teríamos a necessidade de reunir, sob uma série de coerções, todos os nomes e pessoas inventados e vivenciados, em nosso fórum íntimo, em uma unidade positivista de personalidade previsível. O controle de algum rei, célere em nos avisar que a hora de diversão, peraltices e prazeres autotélicos acabou, atenuaria-se, e a criança poderia andar de mãos dadas com o adulto.
Autor
1 Doutor
em Literatura Brasileira e Docente da Faculdade de Letras da UFG.
Notas
1 Os
textos, em que melhor tal complexo pode ser compreendido, bem como a questão do luto e da melacolia e do romance familiar, são: Romances Familiares (1996), texto quase programático de exposição da dinâmica do Édipo no plano ontogenético; Totem e tabu (1996), texto metapsicológico em que se aborda o complexo sob forma ontogenética e filogenética; O mal estar da civilização (1996), outro texto metapsicológico no qual discute-se os sacrifícios que o princípio do prazer, reprimido e/ou sublimado pela equilibração edipiana, faz em prol do princípio de realidade; bem como em Moisés e o monoteísmo (1996), texto também metapsicológico, no qual Freud afirma a necessidade da abdicação da satisfação dos instintos para a consolidação da civilização, mesmo que o preço disso seja uma irremediável ativação repressiva sobre o material reprimido.
2 Klein
diverge de Freud por analisar o complexo de Édipo já na primeira infância. Para Freud, esse processo de identificação só se estabelece quando há ação simbólica de elementos coercitivos advindos do Superego, o que ocorreria no fim da primeira infância e no fim da segunda infância, situação na qual o erotismo primário é direcionado para os mecanismos de sublimação.

Contribuições da literatura do devaneio para o conceito de juventude


O tema da juventude, apesar de sua grande importância sócio-cultural, aparece bem demarcado nas teorias do desenvolvimento da personalidade. Nos clássicos manuais de orientação psicogenética, dentre outras, acompanhamos uma teleologia rígida na integração psicofisiológica do ser humano. Fases, quase que exclusivamente evolutivas, são dispostas como que em uma hierarquização fixa que não possibilita o aparecimento de variáveis determinantes fora do seu contexto de expectativa.
Desta forma, auxiliados por Flavio F. D’Andrea (1989), vemos como o pequeno ser humano passa pela fase oral, aquela do nascimento e da fatal separação materna para o estabelecimento pragmático do desenvolvimento psicossocial; a fase anal, na qual as sementes do superego já se enraízam no psiquismo; a fase fálica, na qual o grande interdito do Édipo mostra-se como um delimitador de ações inter-relacionais; a fase da latência, onde o superego consolidaria seu papel de timão civilizatório para a pequena fera que recebe, de modo arbitrário, o passaporte para fazer parte das relações sócio-culturais complexas.
O processo continuaria com a adolescência, período que equivaleria às modificações intrapsíquicas que acompanham as rápidas mudanças biotípicas e, também, onde teríamos o espaço para uma formação da identidade do sujeito; a fase da maturidade, que engloba a dimensão do adulto-jovem e do adulto de meia idade, que já é capaz de ser considerado como um sujeito competente para assumir determinados lugares sociais; e, enfim, a velhice, fase em que capacidades psicofisiológicas desaceleram-se e o organismo humano encaminhar-se-ia para a situação do descanso inorgânico.
A fase propriamente da juventude, como o senso clínico, bem como grande parte do senso comum estaria no que se convencionou denominar por pós-puberdade. Esta etapa estaria quantificada entre os quinze e os vinte anos do sujeito,
isto é, no período que segue a puberdade, o adolescente de nossa cultura, para integrar-se definitivamente no mundo dos adultos precisa enfrentar o problema vocacional, emancipar-se da família, desenvolver relações satisfatórias com o sexo oposto e integrar sua personalidade, cristalizando uma identidade pessoal (D’Andrea:1989, p. 88).
Poucas linhas de qualificações complexas para um tempo infinitamente pequeno. Integração, emancipação, satisfação e cristalização parecem falas oraculares, proferidas por uma instância inumana. Caem, pois, com peso implacável e insustentável sob a cabeça do sujeito que passaria por tal etapa e, nos seus planos de vida, ambicionaria tão somente encontrar a leveza dos prazeres que a vida poderia propiciar.
O pós-púbere, com um pé na adolescência e outro na dimensão do adulto-jovem, seria obrigado, conscientemente ou não, a chegar a um ponto de evolução, em que variados trabalhos de luto - como o luto pelo corpo infanto-adolescente, o luto pela quebra da onipotência dos pais, o luto pelas maravilhas criadas pela fantasia desenfreada que era possível nas fases anteriores - são forçados a atingir a solução conclusiva, sem nenhuma possibilidade de fiança sócio-cultural, como nos ensina Eric Erikson (1987).
Com tanta exigência para se conseguir o passaporte para a maturidade da integridade pessoal, percebemos, com relativa facilidade, como tais demarcações evolutivas são envoltas mais pelo caráter ideal do fenômeno, que pela situação empírica, contexto no qual realmente a vida humana dá-se em seu devir proteiforme.
Este caráter de constituição proteiforme vai ao encontro do pensamento de Gaston Bachelard (1988), quando o filósofo-poeta discorre sobre o devaneio, que seria aquele atributo psíquico que possibilita ao sujeito a evasão temporal e espacial do universo pragmático e, conseqüentemente cerceador, que a realidade na qual está inserido impõe como mecanismo de equilíbrio grupal. Neste enfoque, as fases evolutivas não estariam presas a uma hierarquia teleológica inflexível. Pelo contrário, se as características de tais etapas podem ser mapeadas, elas o são sempre na qualidade de pontos de intercâmbios e de simbioses não completamente detectados pela lógica racional.
Bachelard ensina-nos que o devaneio funcionaria como uma válvula de escape contra os excessos dos mecanismos repressivos do princípio da realidade, conceito originalmente sistematizado por Freud (1996b), em seu ensaio metapsicológico O mal estar na civilização. Assim, nos momentos de maior tensão, ocasionados pelas exigências do mundo adulto, que é integrado às regras do bom comportamento social, o devaneio criaria uma espécie de solidão criativa. Vejamos a reflexão nas palavras de Bachelard:
Quando, na solidão, sonhando mais longamente, vamos para longe do presente reviver os tempos da primeira vida, vários rostos de criança e adolescentes vêm ao nosso encontro. Fomos muitos na vida ensaiada, na vida primitiva. Somente pela narração dos outros é que conhecemos a nossa unidade. No fio de nossa história contada pelos outros, acabamos, ano após ano, por parecer-nos com nós mesmos. Reunimos todos os nossos seres em torno da unidade do nosso nome (Bachelard, 1988, p. 93).
Uma das maiores exigências da pós-puberdade, e início da juventude, seria a de concatenar-se os elementos que conformariam a identidade do sujeito. Esta conformação, de acordo com a evolução teleológica e de fases fixas, ocasionaria uma espécie de síntese conjuntiva exclusiva; ou seja, via identificação, no sentido que Freud (1996b) dá ao termo, com os outros sujeitos, o sujeito em formação projetaria e introjetaria comportamentos que, juntos em sua egoicidade, criariam a personalidade única, exclusiva e capacitada a assumir um papel social esperado pelo seu meio, como acompanhamos em Arminda Aberastury e Maurício Knobel (1989).
Não é desse sujeito que Bachelard está a nos falar. Se síntese pessoal realmente acontece no contato inter-pessoal, ela não excluiria, com o auxílio do devaneio e de outros princípios psíquicos, as possibilidades de assumência de uma variada gama de comportamentos, mesmo quando em situação de oscilações de personalidades contraditórias. Desta forma, a integração da identidade, cartão de entrada para o mundo adulto, estaria mais no âmbito do que se convencionou denominar por síntese conjuntiva inclusiva, como acompanhamos na poética psicanálise filosófica de Deleuze e Guattari (1966).
Abrir-se-ia, assim, um novo horizonte para acompanharmos como pode se dar, de modo mais libertário e produtivo, o processo de entrada do sujeito no mundo adulto. Com o devaneio, proposto pela visão poética de Bachelard, e com a possibilidade da identidade ser conformada por fragmentos heterogêneos, na proposta de Deleuze e Guattari. Aquelas exigências psicossociais, desta fase de transição, estariam atenuadas, e o amadurecimento do sujeito seguiria o seu curso, que, por vezes, assemelha-se a uma retilínea evolução e, por vezes, mostra-se como traçado errático, no qual as fases imbricam-se umas nas outras, a ponto de não podermos percebê-las nos elementos interseccionados.
O devaneio e a noção da síntese conjuntiva inclusiva mudam nossa percepção dogmática sobre a evolução da personalidade humana. As fases desta evolução são redimensionadas em situações que não de configuram pela exclusão, e sim pela inclusão de material psíquico heterogêneo em complexas situações de intersecção que capacitam o sujeito a perceber-se, a perceber o seu meio natural e os outros sujeitos, de modo mais dinâmico e mais próximo do que, de fato, a vida se apresenta em seu fluir realístico e prazeroso. Daí, talvez, juventude fosse mais um dos vastos e incompletos estados da subjetividade humana.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Do peso e da leveza: sobre a velhice



Acrescentar liberdade de ação à desigualdade fundamental da condição social, impondo o dever da liberdade sem os recursos que permitem uma escolha verdadeiramente livre é, numa sociedade altamente hierarquizada como a brasileira, uma receita para uma vida sem dignidade, repleta de humilhação e autodepreciação (Guita Grin Debert. O Idoso na Mídia. Revista Com Ciência).
Exploraremos, nesse artigo, alguns aspectos sobre a leveza e o peso da existência
, qualidades presentes de modo simultâneo, em uma fase de desenvolvimento da vida humana, que é a velhice. Com o número de pessoas idosas aumentando consideravelmente, tanto nos países avançados como naqueles em desenvolvimento, políticas governamentais e não-governamentais são elaboradas e implementadas no sentido de se encontrar um equilíbrio intergeracional para o bem-estar coletivo. Nesse meio, o que pensamos sobre a velhice, aparados pelos discursos do senso comum, da Gerontologia e da Geriatria, caminha por dois pólos de representação: o pólo da pessoa idosa como sujeito a ser amparado em suas deficiências psicofísicas ou, então, o pólo da pessoa idosa que é capaz de, individualmente, resolver as suas necessidades cotidianas.
Para iniciar nossa abordagem do tema velhice, surge-nos à mente uma das histórias da Mitologia Grega, que nos conta os feitos do herói Perseu. Herói oportuno, pois nos dá um exemplo de como jovem pode relacionar-se com a velhice para conseguir atingir seus feitos gloriosos, com a finalidade de ser alçado a um lugar de honra no mundo olímpico. Sabemos que o jovem Perseu é respeitado por seus pares por ter conseguido decepar a cabeça de uma das Górgonas, a poderosa Medusa, sem ser transformado em estátua e neutralizando, depois dessa conquista, seus potenciais inimigos com essa força prodigiosa, pois todos que olhassem diretamente para os olhos de Medusa, mesmo depois do monstro morto, eram imediatamente petrificados.
Perseu, para conseguir esse feito inaudito, deveria chegar ao lugar habitado pelas Górgonas, passando pelas Graias, protetoras. Essas entidades, as Graias, são divindades que já nasceram velhas e guardam os fatos passados, presentes e futuros, tanto os dos homens quanto os dos deuses. Apesar de sua força primitiva, as Graias são ludibriadas por Perseu e obrigadas a darem o roteiro para o lugar pretendido; contam ao rapaz o percurso para se atingir a região de Medusa. Com outros subterfúgios, o jovem chega ao lugar e ardilosamente consegue seu troféu.
Interessa-nos de perto, mais do que os feitos do mundo antigo, como a velhice já é representada no mundo helênico e como seus ecos ainda batem forte aos nossos ouvidos contemporâneos. As Graias, são três senhoras, numa mistura de características humanas e animais, que têm a particularidade de já terem nascido velhas e ficarem disputando entre si um único olho e um único dente. Daí, seu caráter de vigilantes, já que podem ver, quando uma delas fica com a posse do olho, e falar, quando um delas fica com a posse do dente, com grande clarividência dos segredos do mundo subterrâneo e do mundo da superfície, como nos fala Jonh Bart (1986).
O mito nos oferece uma peculiar relação entre a juventude, em fase de afirmação, e a velhice, já estabelecida em sua autoridade de validar caminhos e práticas de ação tidos como produtivos para o bem estar da coletividade. Poderíamos falar que ele aborda, dentre outras riquezas sócio-culturais, os constantes confrontos entre as faixas etárias, principalmente no que diz respeito à juventude e ao mundo adulto que se colocam frente a frente com a dimensão da velhice.
Leveza e peso são evocados pelo mito. Leveza da juventude em sua confiança cega nas suas próprias forças e em seus arroubos perante a irremediável linha do progresso; peso na falta de meios para se atingir tal progresso. Leveza da velhice por deter os conhecimentos do saber-agir para enfrentar e solucionar as situações de perigo; peso da velhice na quase necessidade de ser enganada para que o jovem atinja seu lugar no meio dos demais adultos.
Como Perseu sai-se desse confronto? Vitorioso, casa-se com Andrômeda, tem seus filhos e governa seu reino. No entanto, as Graias não o perdoam; ao contrário, parecem cobrar o preço de ajudarem, pelo estratagema do engodo, o jovem herói a encontrar a fama. Perseu, com o passar do tempo, vai transformando-se no homem de vida sedentária, barrigudo, sem aventuras instigantes e sua vida insossa caminha-se para a velhice. Os deuses, porém, como que se apiedando de tal destino, transformam-no, e aos entes mais próximos, em estrelas. Perseu é eternizado, petrificado pelo processo de museificação da memória helênica. Leveza da vida, pois, transformada em peso de um saber-viver memorialístico que, talvez, esperaria um novo jovem herói para expropriar seu arquivo repleto de tecnologia para se enfrentar perigos de várias ordens.
Do mito passamos às nossas cotidianas relações sociais, no que elas podem nos ensinar a respeito das relações entre o mundo do homem, em fase de produção convencional, e o homem na idade da velhice. Uma dialética entre a leveza e o peso também aí pode ser seguida, sendo que por muitas vezes, o espírito do peso parece delinear os resultados de tal encontro. O mundo do adulto, em fase de produção, não sabe o que fazer com a pessoa idosa ainda viva. Mesmo que esse mundo conheça e use os valores positivos de seus velhos, esses mesmos velhos, antes de tornarem-se estrelas da constelação de nossas mitologias familiares e sociais, são configurados, predominantemente, pela representação de subjetividades impregnadas por uma concentrada e repugnante carga de peso para si mesmos e para seus contemporâneos.
Nessa fase de excesso de peso que atinge um estrato populacional específico, mas que reflete a qualidade negativa na coletividade, vemos os poderes institucionalizados, governamentais e não-governamentais, internacionais, nacionais, estaduais e municipais, se organizarem para colocar o tema em pauta.
A ONU – Organização das Nações Unidas – na II Assembléia Mundial do Envelhecimento, de 8 a 12 de abril de 2002, em Madri, continuou suas tentativas de unificação global de políticas de ação social para assegurar condições de melhoria de vida para esse contingente populacional, o da pessoa idosa. Nesse encontro internacional, foi formulado o documento intitulado Plano de Ação Internacional para o Envelhecimento, disponibilizado no Brasil pelo Conselho Nacional dos Direitos do Idoso e pela Secretaria Especial dos Diretos Humanos da Presidência da República
.
Para esse documento, o segmento populacional da velhice está tendo, e ainda terá, um aumento sem precedentes na história. Pelas palavras do Secretário Geral da ONU, Sr. Kofi Annan (2003: p. 13), hoje temos razões fundamentais e imperiosas para voltar a refletir sobre a questão. O mundo está passando por uma transformação demográfica sem precedentes. Até 2050, o número de idosos aumentará em aproximadamente de 600 milhões a quase 2 bilhões. No decorrer dos próximos 50 anos haverá no mundo, pela primeira vez na história, mais pessoas acima de 60 anos que menores de 15.
Universaliza-se, pois, a percepção de novas relações sociais frente ao novo fenômeno e, conseqüentemente, novas necessidades vão tomando a pauta das instituições civis e governamentais, responsáveis pelo bem-estar social. E percebemos que uma das diretrizes, presente no pensamento gerontológico contemporâneo, que baseia a junção dos esforços institucionais, é a de diminuir a incapacidade psicofisiológica do sujeito com mais de sessenta anos.
Tal direção vem substituindo aquela convencional crença de que a pessoa idosa estava condicionada à exclusão do mercado tradicional de trabalho, bem como das demais relações sociais e, conseqüentemente, deveria ser alienada da vida social por algum poder institucional. É o que se convencionou chamar, na jargonística da Gerontologia, de “o idoso como fonte de miséria” que contrapõe ao que hoje se implementa como a política do “idoso como fonte de privilégio”.
O quadro de subvalorização do perfil do idoso, apesar das suas limitações em valorizar as potencialidades da pessoa em condição de exclusão, foi um dos primeiros avanços no terreno das teorizações e práticas a respeito da velhice. Apesar de ainda termos ações sociais nessa linha de compreensão, vemos surgir características de uma segunda disposição da representação da constituição e do papel do idoso na nossa sociedade, a da velhice competente, como já mencionamos.
Essa segunda configuração do papel da velhice pretende apresentar o idoso como pessoa ainda apta a agir com capacidades semelhantes ao do adulto. Dessa forma, os programas sociais pretendem reeducá-la para agir como pessoa independente e auto-suficiente, capaz de ainda fazer parte do mercado de trabalho a sua volta.
Aparentemente, quando vemos o idoso tornar-se responsável por si mesmo, parece-nos um acontecimento positivo, pois pensamos ver o surgimento do equilíbrio intergeracional que acabaria com uma carga de esforços tidos como extra para as diversas instituições. No entanto, sabemos que o exagero das representações gratificantes da velhice acaba por criar tantos problemas quanto a idéia de que tal fase da vida é feita apenas por uma condição miserável, tanto em seu nível mental quanto em seu nível físico.
Saímos de um estereótipo da velhice e caímos em outro estereótipo, sem que a questão seja resolvida ou, em hipótese pessimista, teríamos a situação do idoso mais problemática.
O Plano de Ação Internacional para o Envelhecimento, texto que começamos a explorar atrás, esforça-se por balancear suas ações entre os dois pólos que vimos acima. As ações governamentais e não-governamentais que asseguram um desenvolvimento pleno do ser humano, com ênfase em sua fase de velhice, são inseridas em diretrizes e temas que visam a consecução de objetivos bem definidos. Os temas, firmados entre os países participantes, foram englobados no que se convencionou chamar de orientações prioritárias, em número de três: a primeira diz respeito a pessoas idosas e ao desenvolvimento; a segunda, preocupa-se com a promoção da saúde e bem-estar da velhice; a terceira, fomenta a criação de ambiente propício e favorável ao envelhecimento e à pessoa idosa.
A terceira orientação prioritária, dentre outros tópicos e objetivos, traz o tema que diz respeito às imagens do envelhecimento, que objetiva o maior reconhecimento público da autoridade, sabedoria, produtividade, dentre outras contribuições importantes dos idosos. Acreditamos que, nesse tema, está inserido o espírito de nosso artigo, já que estamos acompanhando possibilidades de se perceber a velhice relacionada com outras faixas etárias.
De modo sumário, como mencionamos de início, demonstramos como a questão do envelhecimento e da velhice vem sendo institucionalizada por um organismo internacional e dirigindo as políticas particulares de cada país. Dessa forma, uma orientação integrada, sobre ações a serem implementadas, espraia-se do nível internacional para os níveis federais, estaduais, municipais e não-governamentais. Se levarmos em conta as diferenças de cada povo, de cada cultura, no trato com a pessoa idosa, temos no nível mundial um consenso em juntar esforços para procurarmos a leveza da vida em uma fase que parece ser completamente dominada pelo peso da falência da vida.
Do sumário das diretrizes prioritárias que a ONU nos apresenta, interessa-nos, mais de perto, a preocupação que a ação internacional denominou por imagens do envelhecimento. Isso significa que “uma imagem positiva do envelhecimento é um aspecto essencial do Plano de Ação Internacional sobre o Envelhecimento, 2002” (ONU, p. 72-73).
A saúde e o gozo pleno das capacidades psicofísicas são, de fato, muito importantes para a pessoa idosa. No entanto, o custo disso (a concentração da assistência pública, o custo com serviços de assistência à saúde, as pensões e outros serviços) funciona como estímulo para que a população, de produtividade convencional, produza e promova uma série de imagens negativas do envelhecimento e da velhice. Assim, as imagens que destacariam o atrativo, a diversidade e a criatividade dos idosos e sua contribuição vital para a sociedade, devem competir com as imagens negativas para despertar a atenção dos demais estratos etários da sociedade.
Nossa sociedade midiática, além de nossa literatura erudita ou popular
, fazem-nos engolir, constantemente, imagens distorcidas sobre o processo do envelhecimento e, conseqüentemente, da velhice. Pelos veículos de comunicação, a pessoa idosa só adquire valor positivo quando nos pode auxiliar de modo pragmático, ou seja, de forma pontual e sem compromisso de contrapartida. Auxílio conquistado, a pessoa velha é descartada e encaminhada para situação semelhante àquela de museificação, que abordamos no início desse artigo, quando abordamos a condição final do herói Perseu. Leveza da vida que deveria destruir o peso da morte. Porém, mais uma vez o maniqueísmo mostra-se estéril e não é capaz de nos colocar frente às verdadeiras feridas de nossas fábricas de imagens estereotipadas.
Simone Beauvoir (1990), em seu básico ensaio sobre a velhice, conta-nos uma das histórias de Buda, que pode enriquecer nossas reflexões. É a seguinte: Quando Buda era ainda o príncipe Sidarta, encerrado por seu pai num magnífico palácio, dele escapuliu várias vezes para passear de carruagem nas redondezas, Na primeira saída, encontrou um homem enfermo, desdentado, todo enrugado, encanecido, curvado, apoiado numa bengala, titubeante e trêmulo. Espantou-se, e o cocheiro lhe explicou o que era um velho: “Que tristeza – exclamou o príncipe – que os seres fracos e ignorantes, embriagados pelo orgulho próprio da juventude, não vejam a velhice! Voltemos rápido para casa. De que servem os jogos e as alegrias, se eu sou a morada da futura velhice?”
Ser a morada da velhice é um dos vislumbres que o jovem Buda tem das verdades mais profundas. Nesse quadro não se pode agir como Perseu diante das Graias, num aparente confronto natural entre as várias gerações, no qual a velhice sempre dever ser ludibriada para que o herói receba sua coroa de louros. Enganosa vitória seria essa, já que o peso da petrificação, outrora protegido pelas velhas senhoras, é elemento inerente do rapaz que, com todos os seus ardis, pensa em dele fugir pela ilusória leveza conferida pela posse de poderes que se tornam, assim que usados, falíveis.
O jovem e o adulto, que conhecem a velhice dentro de si mesmos, estariam mais preparados para receber, de modo crítico e produtivo, as imagem negativas do envelhecimento e da velhice que lhes são oferecidas. Assim, o recolhimento à casa, semelhante ao do jovem Buda, serviria para o ajuntamento de esforços que assegurasse um reconhecimento público da autoridade, sabedoria, produtividade e outras contribuições importantes que vêm da velhice.
Nesse sentindo, o de percebermos a velhice como uma característica inerente a nossa constituição, vemos a urgência de seguirmos a orientação prioritária da ONU quanto a este tema: há a necessidade de implementarmos, em nosso meio social, medidas que elaborem e promovam amplamente um marco normativo, onde haja responsabilidade individual e coletiva de reconhecer as contribuições passadas e presentes dos idosos, procurando resistir a mitos e idéias pré-concebidas e, conseqüentemente, tratar os idosos com respeito e gratidão, dignidade e consideração.
Devemos estimular, como espectadores críticos e ativos, os meios de comunicação de massa a promoverem imagens que destaquem a sabedoria, os pontos fortes, as contribuições, o valor e a criatividade de mulheres e de homens idosos, inclusive daqueles idosos com incapacidades.
Que se proliferem as portas abertas, proporcionadas pelas universidades, faculdades e escolas, para o estímulo de educadores que reconheçam e incorporem, em seus cursos, as contribuições feitas por pessoas de todas as idades, inclusive as idosas. Este estímulo funcionará para que o educando perceba e tenha ilustrada, em sua vida sócio-cultural, a diversidade plena da humanidade.
Sem dúvida, a mídia tem forte papel a desempenhar na implementação de novas imagens do envelhecimento e da velhice. É necessário, pois, reconhecer que tais meios de comunicação são precursores da mudança e podem atuar como fatores de orientação na promoção do papel que toca aos idosos nas estratégicas de desenvolvimento, inclusive nas zonas rurais. Além disso, salienta-se a necessidade de novos espaços, que esses meios de comunicação poderiam abrir, para a pessoa idosa apresentar suas atividades e preocupações cotidianas.
Poderíamos publicar compêndios com ações que, efetivamente, equilibrariam a questão do peso e da leveza no âmbito da velhice e do envelhecimento. Porém, acreditamos que o discurso gerontológico, ou outros afins, consegue, hoje, aproximar-se, com aparelhagens refinadas e competentes, do fenômeno em questão. Profissionais, de várias áreas do conhecimento, juntam-se para se especializarem no assunto
, e governos e órgãos não-governamentais já encaram, sem tantos maquiavelismos, o encontro entre gerações que outrora, em nossa cultura ocidental, marcavam presença em beligerantes confrontos. Assim, pensamos que se relativiza a distância entre o peso e a leveza, entre o meu ser produtivo e bem localizado socialmente, de hoje, com a velhice que me habita e, brevemente, tomará seu centro. Perseu, talvez, poderá, em um futuro próximo, convidar as Graias para um espontâneo, desinteressado e alegre vôo pelo mundo dos homens.

domingo, 27 de janeiro de 2008

Entre perdas e ganhos: luto e melancolia ( I )




Curto muito a poesia de Charles Baudelaire. Sua arte de natureza ex-cêntrica e de espírito decandentista, do qual sou próximo, seduziu-me desde a adolescência. Lembro-me bem de quando eu lia em voz alta um dos meus poemas preferidos que aqui coloco na íntegra:


SPLEEN


Sou como um rei sombrio de um país chuvoso,

Rico, mas incapaz, moço e no entanto idoso,

Que, desprezando do vassalo a cortesia,

Entre seus cães e outros bichos se entedia.

Nada o pode alegrar, nem caça, nem falcão,

Nem seu povo a morrer defronte do balcão.

Do jogral favorito a estrofe irreverente,

Não mais desfranze o cenho deste cruel doente.

Em tumba se transforma o seu florido leito,

E as aias, que acham todo príncipe perfeito,

Não sabem mais que traje erótico vestir,

Para fazer este esqueleto enfim sorrir.

O sábio que ouro lhe fabrica desconhece

Como extirpar-lhe ao ser a parte que apodrece,

E nem nos tais banhos de sangue dos romanos,

De que se lembram na velhice os soberanos,

Pôde dar vida a esta carcaça, onde, em filetes,

Em vez de sangue flui a verde água do Letes.



Eu pensava que o sentido do poema refletia uma de minhas sensações mais freqüentes que era a de estar cercado por uma infinidade de pessoas, mas, ao mesmo tempo, ter a sensação de estar sozinho ou imcompleto. De possuir uma situação repleta de benefícios familiares, sociais e culturais, mas, paradoxalmente, também sentir que algo importante para minha integridade estava faltando.

Minha adolescência deu lugar à juventude, essa, à maturidade (mesmo que oscilante) e ainda hoje, sinto falta de algo que não compreendo o que seja. Por mais que eu tentasse historicizar os fatos e situações vividos, não encontrava nenhum acontecimento que me ttivesse dado insatisfação singular, que eu tivesse perdido e que dele eu sentisse conscientemente falta. Com grande frequência, ainda hoje tenho o hábito de me sentir como o sombrio rei baudelaireano, a quem nenhum sacríficio é capaz de diminuir a realidade do sentimento de perda, de vazio, da misteriosa sensação de incompletude.

Eu teria razões, portanto, para me vestir de preto, desligar-me da realidade na qual estou inserto, cultuar a morte, vagar por cemitérios soturnos (o que de vez em quando realmente faço, mas durante o dia para fotografar arte tumular) e isolar-me na minha ilha-lenitivo do narcisismo egóico.

Apesar de cultivar um relativo isolamento social, sou afeito aos variados enfrentamentos que a vida me proporciona. Saio-me bem de alguns, saio-me mal de tantos outros e vou levando o barco em uma dinâmica até instigante e interessante para os padrões de normalidade de minha cultura. No entanto, vez ou outra dou por mim à beira do familiar e companheiro vazio que me acompanha por anos e anos.

Por vezes penso que essas horas são necessárias, como Baudelaire prenunciou, ao observar os excessos da industriação, os avanços tecnológicos, a velocidade e superficiliade das relações sociais que sua época começava a viver. Em períodos de alta produtividade pragmática, em uma sociedade que nos exige atenção e trabalho adequados a produção de um elevado quantum de bens, nada seria mais natural e positivo do que um desligamento para nosso espírito repousar ou avaliar a qualidade e funcionalidade da quantidade de bens produzidos. Esse spleen seria o repouso em relação à vida cotidiana e uma imersão em um existência íntima repleta de novas possibilidades e/ou de jogos existenciais que não objetivam atigir nenhuma meta de produtividade pragmática. Fantasia, imaginação, delírios, sentimentos vastos e sensações imperfeitas, tudo isso faria parte do trabalho de spleen. Ou seja, um desligamento saudável e necessário.
O spleen seria então um desligamento feliz. Químico ou natural, pois sua natureza pode ser induzida por substâncias artificais, mas também pelas ocorrências do cotidiano que sensibilizam de modo peculiar o nosso psiquismo. Gaston Bachelard o chamaria de devaneio e traria a ele uma gama de qualidades metafísicas e humanistas.

No entanto, minhas horas de spleen foram e são ainda acometidas por uma quantidade significativa de angústia e percebo que a proximidade deste estado de ócio produtivo, e minha imersão nele, parece acender alguma luz. Não sei se de cautela ou de perigo imediato.

A recorrência deste contexto é bem localizada quando sei que perdi algo em minha vida. Essa perda pode ser de abrangência bem variada, podendo ser a perda de um ente querido, de um objetivo de vida, de uma crença, de uma situação que considero positiva, de um sentimento valorizado, de uma fantasia. Enfim, aquele leque de perdas que seria bastante natural enfretarmos no curso de nossas vidas e que não ocasionaria transtornos maiores em subjetividades calejadas pelas exigências impostas por modelos de comportamentos considerados normais.

Essa longa introdução, ou como minha avó dizia: essa comida do mingau pelas beiradas, serve para afirmar que meu spleen transforma-se facilmente em luto, que, por sua vez, transforma-se facilmente em melancolia. Não uma melancolia que atinja o nível patológico, mas sim aquela que me retira significativas possibilidades de investimentos energéticos.

Gosto da metáfora que explica a vida psíquica como sendo um organismo gerador e consumidor de energia, um corpo energético. Tal como máquinas, existimos nessa dinâmica de produzir condições para continuarmos vivos e, ad infinitum (ou até a morte chegar), manter a quantidade e qualidade da energia conquistada, além de operacionar novas condições para conquistas de mais e novas energias.

Aparentemente meu sentimento recorrente de vazio existencial corresponderia a uma pane sistêmica, no lugar de funcionar como uma parada para reparação da máquina. Em outras palavras, não consigo trabalhar bem com situações de perda. O lance de sacudir a poeira e procurar criar novos caminhos a partir dos percursos alternativos parece me exigir uma demanda excessiva de energias.

Com o objetivo de compreender melhor esse quadro, que mais pessoal, acredito ser de abrangência bem maior do que penso, reli "Luto e Melancolia", de Sigmund Freud.
Assim como sou baudelairiano de carteirinha, venho lendo a teoria freudiana ha anos e, muito vagarosamente, sinto que compreendo aonde esse pensador desejava chegar.

O sentimento de luto é natural ao ser humano. A perda do objeto do desejo, aquele no qual depositamos nossa energia de vida (a libido), exige que refaçamos os percursos. Essa reorganização de vida exige um gasto energético variável, de acordo com a formação psíquica do sujeito. Quanto mais movido por uma libido centrípeta, sua reação o levará rapidamente para outras situações que lhe permitirão a substituição do objeto amado que foi perdido. Quanto mais movido por uma libido centrífuga, esse desinvestimento libidinoso ocorrerá com angustiante lentidão, a ponto de comprometer a produtividade sistêmica do corpo maquínico.

Soma-se a estas diferentes ocorrências, a natureza consciente ou inconsciente do processo. Se o caso é historicizável, procedimentos consensuais dos lugares sociais ocupados pelo sujeito serão de grande valia para a natural substituição do objeto perdido. No entanto, nem todas as estórias e histórias que contamos sobre nós e sobre os outros são confiáveis, dignas, portanto, de repertório educativo para a criação ou consolidação de comportamentos válidos no futuro.
A perda pode ser esquecida, minimizada, deslocada ou entrar para a listas das inúmeras perdas que sofremos na vida. A perda também, no entanto, pode somar-se, como que erraticamente, a outros núcleos afetivos que fazem nossa personalidade ser algo além do que pensamos que ela seja. Nesse ponto, o de elaboração de uma rede de afetos criados por situações de perdas e outras situações de natureza heterogênea, a coisa complica muito. Sinto, então, que é preciso fazer uma distinção maior daqueles elementos que idenficariam o spleen, o devaneio, o luto e a melancolia.

Quero tratar com maior precisão sobre tais situações na próxima blogagem.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Corpos cartografados



Esta é minha primeira postagem em um fotoblog. Primeira porque considero que esta atividade será um exercício mais sistematizado de escrita e não blogagens desinteressadas como já cheguei a fazer em blogs anteriores.

Sinto-me animado a escrever. E essa animação vem em hora urgente, pois não escrevo ha tempos. Apenas leio, releio e torno a ler uma variedade de textos que vão entrando em minhas formações discursivas sem apresentar um caráter de dinamicidade reflexiva e interativa. Esta dinamicidade, da qual sinto grande necessidade, supõe que eu reflita sobre o que eu leio, que eu escreva e, se possível, que eu seja lido para que minha escrita consolide-se.

Meu corpo está cartografado qual um palimpsesto. Linhas existenciais estão dispostas sobre ele a ponto de o definir em uma geologia e genealogia que normalmente não consigo compreender direito. Dessa forma, escrever conforma um trabalho de arqueologia para que eu vislumbre os vários idiomas, as várias mensagens, os vários dispositivos institucionais que me configuram, independente se deles tenho consciência ou não.

A escrita é útil, apesar dos seus naturais mecanismos de mascaramentos dos sintomas que urgentemente desejamos sempre desvendar. A escrita é como um fármaco ou "pharmacon", como Platão a chamava, em sua tentativa de sistematizar as melhores formas de educação para o idealizado homem de sua república. A escrita é uma instituição cultural que coloca o homem no patamar de sujeito civilizado. Por escrita compreendo qualquer forma de expressão de conteúdos que visam a transmissão de alguma mensagem direta ou indireta. Desse fármaco, não adianta ficarmos acautelados, pois definitivamente seu lugar se sobressaiu ao da oralidade, que exigia a presença dos interlocutores e assegurava um tom mínimo de confiabilidade.

De todas as linguagens, penso que a escrita é a mais formal em relação aos protocolos de controle sócio-culturais. Ela é normatizada para que as mensagens sejam compreensíveis, plausíveis e, infelizmente, morais e éticas. O peso dos privilégios de sermos civilizados abate-se sobre nossas cabeças a cada vez que escrevemos. Desde uma simples frase a um ensaio complexo, olhares de todas as épocas e de todos os lugares debruçam-se sobre nós e sentimos o peso do fármaco, que igual ao medicamento rotineiro, pode nos curar ou nos tirar a vida de vez.

Na dinâmica da positividade, vejo a escrita como a concebe Peter Greenaway, em seu intenso filme "The Pillow Book" (1995). A positividade é saber que se pode manipular estratégias de convívio com a técnica da escrita e da leitura e, com isso, seu complexo formador de existencidades subjetivas e intersubjetivas. A protagonista do filme é uma jovem chamada Nagiko, em cujo corpo o pai tinha o hábito de escrever a cada aniversário da garota. Na sua maturidade, e em uma hora de criatividade existencial, Nagico passa a escrever sobre corpos alheios para compreender o que significava aquele exercício misterioso. Seu objetivo parece ser o de traduzir o que ela mesma carregava em seu próprio corpo. Para ler-se, parece que Greenaway nos diz que devemos escrever. E essa escrita deve dirigir-se ao outro para que nele percebamos o quanto e o quê há de nós nos trâmites da energia desejosa.

O fármaco-escrita em seu caráter positivo parece ser esse exercício de não nos completarmos em nossa própria egoicidade de escrita-leitura e de consolidação de significados. Ele exige que entremos na alteridade radical que é o deslocamento do ego no outro que o forma de modo sempre inclusivo. Mesmo que esse outro seja constituído por um repertório de contradições e de posições recusadas e evitadas por aquele nosso núcleo duro de personalidade que visa encontrar um equilíbrio exato do que pensa ser e do que pensa ser capaz de representar.

Sei que meu corpo é feito por linhas de sentidos, de desejos, de cortes de fluxos energéticos e de ligações não tão localizáveis. Meu corpo inteiro é cartografado e cartografável, no entanto, são cartografias ou existenciadades heterogêneas. Várias escritas de culturas, locais e épocas diferentes foram se sobrepondo até que meu corpo aparentasse tomar forma. Mas esta forma não se estabiliza em uma pretensa fase de maturidade. É um construto sempre do devir. Uma forma que não se dá a uma concretude e a um equilíbrio que seriam feitos por uma síntese exclusiva do "se é isso, não pode ser aquilo". Como Deleuze e Gattari nos falam no seu livro "O Anti-Édipo", meu corpo vai se fazendo por uma síntese inclusiva, portanto, ele não é nada mais do que um pólo fantasmagórico que serve de encontro para coordenadas heterogêneas de existencialidades. Cartografia, portanto, de difícil acesso para o clássico arqueólogo que procura, após a descoberta de camada por camada das existências anteriores, o núcleo duro dlo que seria a verdade intencionada.

Bem, acho que tentei explicar demais o porquê desse fotoblog. O objetivo é o de escrever. Escrever para não me adequar à mania de enviar mensagens rápidas e superficiais, como é de hábito nos meios contemporâneos de comunicação. Escrever para exercitar minha linguagem. Escrever para delirar que esclareço minha compreensão de uma infinidade de coisas. Escrever para brincar de arqueólogo de minha própria existência. Escrever para agarrar a fugacidade de realidades que chegam esfaceladas a minha percepção. Escrever para brincar de Homero que chega a Ítaca e conta para sua família e amigos como foi engenhoso o seu combate com o Fado. Escrever uma escrita que me proporcione o conhecimento, mesmo sabendo que a exatidão e a completude desse conhecimento seja uma quimera. Uma quimera que me dará a ilusão de um estar aqui no mundo. Uma escrita provisória advinda de um lugar provisório e tocado pela produtividade defensiva, mas também lúdica, que talvez me torne mais localizado na radical alteridade da vida.