segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Contribuições da literatura do devaneio para o conceito de juventude


O tema da juventude, apesar de sua grande importância sócio-cultural, aparece bem demarcado nas teorias do desenvolvimento da personalidade. Nos clássicos manuais de orientação psicogenética, dentre outras, acompanhamos uma teleologia rígida na integração psicofisiológica do ser humano. Fases, quase que exclusivamente evolutivas, são dispostas como que em uma hierarquização fixa que não possibilita o aparecimento de variáveis determinantes fora do seu contexto de expectativa.
Desta forma, auxiliados por Flavio F. D’Andrea (1989), vemos como o pequeno ser humano passa pela fase oral, aquela do nascimento e da fatal separação materna para o estabelecimento pragmático do desenvolvimento psicossocial; a fase anal, na qual as sementes do superego já se enraízam no psiquismo; a fase fálica, na qual o grande interdito do Édipo mostra-se como um delimitador de ações inter-relacionais; a fase da latência, onde o superego consolidaria seu papel de timão civilizatório para a pequena fera que recebe, de modo arbitrário, o passaporte para fazer parte das relações sócio-culturais complexas.
O processo continuaria com a adolescência, período que equivaleria às modificações intrapsíquicas que acompanham as rápidas mudanças biotípicas e, também, onde teríamos o espaço para uma formação da identidade do sujeito; a fase da maturidade, que engloba a dimensão do adulto-jovem e do adulto de meia idade, que já é capaz de ser considerado como um sujeito competente para assumir determinados lugares sociais; e, enfim, a velhice, fase em que capacidades psicofisiológicas desaceleram-se e o organismo humano encaminhar-se-ia para a situação do descanso inorgânico.
A fase propriamente da juventude, como o senso clínico, bem como grande parte do senso comum estaria no que se convencionou denominar por pós-puberdade. Esta etapa estaria quantificada entre os quinze e os vinte anos do sujeito,
isto é, no período que segue a puberdade, o adolescente de nossa cultura, para integrar-se definitivamente no mundo dos adultos precisa enfrentar o problema vocacional, emancipar-se da família, desenvolver relações satisfatórias com o sexo oposto e integrar sua personalidade, cristalizando uma identidade pessoal (D’Andrea:1989, p. 88).
Poucas linhas de qualificações complexas para um tempo infinitamente pequeno. Integração, emancipação, satisfação e cristalização parecem falas oraculares, proferidas por uma instância inumana. Caem, pois, com peso implacável e insustentável sob a cabeça do sujeito que passaria por tal etapa e, nos seus planos de vida, ambicionaria tão somente encontrar a leveza dos prazeres que a vida poderia propiciar.
O pós-púbere, com um pé na adolescência e outro na dimensão do adulto-jovem, seria obrigado, conscientemente ou não, a chegar a um ponto de evolução, em que variados trabalhos de luto - como o luto pelo corpo infanto-adolescente, o luto pela quebra da onipotência dos pais, o luto pelas maravilhas criadas pela fantasia desenfreada que era possível nas fases anteriores - são forçados a atingir a solução conclusiva, sem nenhuma possibilidade de fiança sócio-cultural, como nos ensina Eric Erikson (1987).
Com tanta exigência para se conseguir o passaporte para a maturidade da integridade pessoal, percebemos, com relativa facilidade, como tais demarcações evolutivas são envoltas mais pelo caráter ideal do fenômeno, que pela situação empírica, contexto no qual realmente a vida humana dá-se em seu devir proteiforme.
Este caráter de constituição proteiforme vai ao encontro do pensamento de Gaston Bachelard (1988), quando o filósofo-poeta discorre sobre o devaneio, que seria aquele atributo psíquico que possibilita ao sujeito a evasão temporal e espacial do universo pragmático e, conseqüentemente cerceador, que a realidade na qual está inserido impõe como mecanismo de equilíbrio grupal. Neste enfoque, as fases evolutivas não estariam presas a uma hierarquia teleológica inflexível. Pelo contrário, se as características de tais etapas podem ser mapeadas, elas o são sempre na qualidade de pontos de intercâmbios e de simbioses não completamente detectados pela lógica racional.
Bachelard ensina-nos que o devaneio funcionaria como uma válvula de escape contra os excessos dos mecanismos repressivos do princípio da realidade, conceito originalmente sistematizado por Freud (1996b), em seu ensaio metapsicológico O mal estar na civilização. Assim, nos momentos de maior tensão, ocasionados pelas exigências do mundo adulto, que é integrado às regras do bom comportamento social, o devaneio criaria uma espécie de solidão criativa. Vejamos a reflexão nas palavras de Bachelard:
Quando, na solidão, sonhando mais longamente, vamos para longe do presente reviver os tempos da primeira vida, vários rostos de criança e adolescentes vêm ao nosso encontro. Fomos muitos na vida ensaiada, na vida primitiva. Somente pela narração dos outros é que conhecemos a nossa unidade. No fio de nossa história contada pelos outros, acabamos, ano após ano, por parecer-nos com nós mesmos. Reunimos todos os nossos seres em torno da unidade do nosso nome (Bachelard, 1988, p. 93).
Uma das maiores exigências da pós-puberdade, e início da juventude, seria a de concatenar-se os elementos que conformariam a identidade do sujeito. Esta conformação, de acordo com a evolução teleológica e de fases fixas, ocasionaria uma espécie de síntese conjuntiva exclusiva; ou seja, via identificação, no sentido que Freud (1996b) dá ao termo, com os outros sujeitos, o sujeito em formação projetaria e introjetaria comportamentos que, juntos em sua egoicidade, criariam a personalidade única, exclusiva e capacitada a assumir um papel social esperado pelo seu meio, como acompanhamos em Arminda Aberastury e Maurício Knobel (1989).
Não é desse sujeito que Bachelard está a nos falar. Se síntese pessoal realmente acontece no contato inter-pessoal, ela não excluiria, com o auxílio do devaneio e de outros princípios psíquicos, as possibilidades de assumência de uma variada gama de comportamentos, mesmo quando em situação de oscilações de personalidades contraditórias. Desta forma, a integração da identidade, cartão de entrada para o mundo adulto, estaria mais no âmbito do que se convencionou denominar por síntese conjuntiva inclusiva, como acompanhamos na poética psicanálise filosófica de Deleuze e Guattari (1966).
Abrir-se-ia, assim, um novo horizonte para acompanharmos como pode se dar, de modo mais libertário e produtivo, o processo de entrada do sujeito no mundo adulto. Com o devaneio, proposto pela visão poética de Bachelard, e com a possibilidade da identidade ser conformada por fragmentos heterogêneos, na proposta de Deleuze e Guattari. Aquelas exigências psicossociais, desta fase de transição, estariam atenuadas, e o amadurecimento do sujeito seguiria o seu curso, que, por vezes, assemelha-se a uma retilínea evolução e, por vezes, mostra-se como traçado errático, no qual as fases imbricam-se umas nas outras, a ponto de não podermos percebê-las nos elementos interseccionados.
O devaneio e a noção da síntese conjuntiva inclusiva mudam nossa percepção dogmática sobre a evolução da personalidade humana. As fases desta evolução são redimensionadas em situações que não de configuram pela exclusão, e sim pela inclusão de material psíquico heterogêneo em complexas situações de intersecção que capacitam o sujeito a perceber-se, a perceber o seu meio natural e os outros sujeitos, de modo mais dinâmico e mais próximo do que, de fato, a vida se apresenta em seu fluir realístico e prazeroso. Daí, talvez, juventude fosse mais um dos vastos e incompletos estados da subjetividade humana.

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